A formação do consumidor consciente como desafio escolarMenos de 30% da população mundial possui condições de consumir além das necessidades básicas – somente no Brasil são aproximadamente 165 milhões de excluídos. Enquanto isso, a pressão ambiental exercida pela minoria compradora já se mostra suficiente para exaurir as reservas naturais e inviabilizar os ciclos de renovação dos recursos do planeta. Desde os apontamentos dos primeiros relatórios do PNUD* e WWI** é sabido que a manutenção desse modelo tem acentuado as desigualdades sociais e empurrado o ambiente ao colapso. O aquecimento global e a violência urbana são apenas dois exemplos de impactos de nosso culto ao consumo.
Mas quais seriam então as atitudes e os hábitos necessários para atenuar os resultados de nossas atitudes de consumo? A resposta fundamental tem sido exercitar o consumo sustentável e/ou construir condições para tanto. Um consumidor sustentável – ético, consciente e responsável – seria alguém que entende o consumo como parte da dinâmica da vida social, sem ignorar que a vida biológica está em risco por conta do consumismo; que contempla em suas decisões de compra aspectos ligados não apenas ao usufruto, mas também à produção e ao descarte dos bens e serviços, e que questiona criticamente as necessidades criadas (ou impostas) pela publicidade.
Para formar esse tipo de cidadão não há veículo de significação social com poder comparável à escola. Nela, os alunos vivenciam tudo do fazer cotidiano, inclusive o consumo, e tais vivências, se refletidas, tornam-se experiências de vida que carregarão consigo para sempre. As possibilidades de leitura da realidade socioambiental e a construção de instrumentos para intervenção consolidam-se como função da educação formal, de forma que uma instituição escolar que se preza contemporânea não pode privar-se da discussão sobre os hábitos de consumo das crianças, jovens e adultos que a fazem.
No ensino das ciências, consumo sustentável não se define apenas como um conteúdo novo, senão que demarca novos significados para conteúdos clássicos. Não há mais como ensinar fluxo energético, biodiversidade, ecossistemas, recursos naturais, alimentação e até sexualidade sem tomar entre os objetivos as conexões desses temas, com nossos hábitos de compra. Os desequilíbrios ecológicos, a poluição do ar, a água e o solo, e mesmo nossos conceitos de beleza recebem agora as marcas da publicidade e das pressões sociais pelo consumismo.
Outras áreas do saber como a matemática, a geografia, a história, o português e as artes ganham força como parceiras em articulações interdisciplinares. Respectivamente, os estudos de dados da economia doméstica, a análise da transformação do espaço natural e social pelas formas de produção e descarte, os significados das alterações históricas, atividades sociais e a análise das linguagens utilizadas nas peças publicitárias são algumas das relações que se pode tecer.
Para o trabalho de sala de aula destacam-se estratégias como pesquisas direcionadas aos hábitos de consumo dos alunos e suas famílias, saídas a campo e estudos de cenários como feiras livres, supermercados e centros de compra, investigações de ciclo produtivo e de bens materiais presentes na escola, encenações teatrais envolvendo produtos e serviços fictícios, até questionamentos coletivos dos padrões e significados dos hábitos de consumo da turma. São atividades como essas que abrem espaço para que os já sinalizados conhecimentos específicos das disciplinas escolares sejam reivindicados como instrumentos de interpretação e análise.
Por fim, ao constatarmos que o consumo também carrega em si o significado de status e realização pessoal, e que isso favorece um panorama ambiental e social insustentável, a temática do consumo atinge a escola não mais apenas como uma questão de cidadania, mas de sobrevivência.
* Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
** Worldwach Institute
Marcelo Valério, Assessor de Ciências da Natureza e Biologia da Editora Positivo.